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Literatura/Resenha:Portugal: - Comemorando uma efemride especial - 25 de Abril.
Colocado em 25 Abril 2005 s 10:48:46 por Amlia Pinto Pais. | Imprimir Artigos Enviar a um amigo

Literatura/Resenha:Portugal: - Comemorando uma efeméride especial - 25 de Abril.


Comemorando uma efemride especial - 25 de Abril


O 25 de Abril portugus (em 1974) foi o dia da chamada revoluo dos Cravos, que liquidou o regime salazarista de ditadura que existia em Portugal desde 28 de Maio de 1926. Ficou sendo feriado nacional e Dia da Liberdade.Tambm em Itlia feriado, assinalando a data da queda de Mussolini.
O 25 de Abril originou a 1verso da cano de Chico Buarque de Hollanda, Tanto Mar, num Brasil ento ainda sob ditadura militar.

 

AOS MAIS NOVOS

Em 25 de abril de 1974 os portugueses acordaram de modo diferente:na rdio davam-se notcias de um 'MOVIMENTO DAS FORAS ARMADAS' que se propunha derrubar o poder autoritrio, que governava Portugal desde 1926,e era responsvel ,entre outras coisas, por uma guerra colonial que poucos desejavam .Era propsito desse movimento militar DEMOCRATIZAR - DESCOLONIZAR-DESENVOLVER o pas.
Os teus pais, provavelmente, j te falaram disso - foi um acontecimento importante para Portugal, para frica, para o mundo - por isso, feriado nesse dia.
nossa inteno, a partir de hoje e at ao prximo 25 de abril dar-te a conhecer aspectos de como se vivia em Portugal antes dessa 'revoluo'('dos cravos', como foi chamada).So testemunhos directos de quem viveu o antes e o depois dessa data histrica.
Vamos passar a chamar estes testemunhos de

 

NOTCIAS DO "ANTIGAMENTE"

 

Aspectos da vida nas Escolas :

1.No havia turmas mistas(a no ser no ento chamado Curso Complementa r-correspondente ao actual 10e 11ano);os ptios de recreio tambm no eram mistos

No entanto, alguns rapazes e raparigas iniciaram, na Escola onde a autora destas linhas exerce a sua profisso h quase 25 anos, a E.S.F-R.Lobo,com o apoio de alguns professores, e j no ano de 1973/74,movimentos reivindicativos a favor dos 'ptios mistos'. Tais movimentaes eram consideradas "subversivas"e poderiam ter dado origem a processos disciplinares - se nesse mesmo ano no tivesse havido o 25 de abril...

2. Em 'saraus artsticos'que os finalistas costumavam fazer, os textos a "declamar" ou representar no eram escolhidos livremente pelos alunos ou professores que os apoiavam: passavam por uma espcie de 'censura prvia' das autoridades escolares(nomeadas pelo Governo e no eleitas, como agora).

Por exemplo: uma vez foram proibidos, de Fernando Pessoa, os poemas O MENINO DE SUA ME (fala de um jovem soldado morto na guerra) e LIBERDADE (em que se diz Ai que prazer/No cumprir um dever/Ter um livro para ler/E no o fazer-Ler maada/Estudar nada..).- Pobre Pessoa ,censurado depois de morto!...
Razes da proibio: o 1poema, sendo triste e contra a guerra, no era aconselhvel num pas que estava numa guerra 'patritica' no ultramar(=colnias) ;o 2 'parecia mal', dito
por estudantes...)
Os alunos "prometeram" acatar estas decises: uma vez no sarau, disseram mesmo os poemas-o velho gostinho do fruto proibido...No lhes aconteceu nada, felizmente, mas houve alguma margem de risco...para os alunos - e para o professor(a) responsvel pelo sarau...

 

3..Estavam proibidas as Associaes de Estudantes do Ensino Secundrio - o regime temia que a agitao e a contestao estudantil ,nomeadamente pela autonomia universitria e contra a guerra colonial, alastrasse aos estudantes das escolas secundrias. Quanto s associaes de estudantes universitrios, eram fortemente vigiadas -e algumas vezes encerradas -Havia polcias nas universidades - os estudantes designavam-nos de "gorilas"...-e fortes cargas policiais nas manifestaes - muitos eram feridos e houve estudantes mortos. Momentos mais altos da contestao estudantil: crises acadmicas de 1962,1965 e 1969.

4.Tambm os professores, como funcionrios pblicos que eram, tinham de fazer anualmente uma declarao de repdio activo pelo comunismo e "outras actividades subversivas" e de lealdade ao regime (Muitos professores de mrito foram expulsos das suas escolas)
Eram proibidos sindicatos de professores - havia associaes pr-sindicais, chamadas de Grupos de Estudo do Pessoal Docente - foram proibidas em Fevereiro de 1974,sob a acusao de serem associaes 'secretas' e 'subversivas'.
Felizmente a proibio - que mergulhou os professores mais activos numa espcie de 'clandestinidade'- s duraria 2 meses - at 25.4.74...

 

 

COMO ERAM AS ELEIES QUE HAVIA

Provavelmente j sabers que no havia partidos polticos de oposio legais ­ havia , por um lado, e devidamente autorizada, a UNIO NACIONAL /ACO NACIONAL POPULAR - que congregava os adeptos do governo - e, de vez em quando eram toleradas, mas com fortes condicionalismos de aco, plataformas eleitorais, como o MUD, a CEUD e a CDE. Havia ainda, na clandestinidade ,o Partido Comunista e o Partido Socialista. Os membros destes partidos e os seus lderes eram fortemente perseguidos, presos ou encontravam-se exilados.

No havendo partidos com vida regular autorizada, tambm no poderia haver eleies democrtiticas - nem para a Presidncia da Repblica, nem para o Parlamento, ento chamado Assembleia Nacional.
De vez em quando, porm, havia 'eleies' - nessa altura aceitavam-se as tais plataformas eleitorais - mas dificultava-se-lhes o acesso a tempos de antena, aos jornais (que eram censurados) e os comcios e sesses de esclarecimento eram dificultados, proibidos, por vezes, e outras vezes interrompidos por cargas da polcia.. No havia eleies autrquicas nem para as Cmaras Municipais, nem para as Juntas de Freguesia. Presidentes da Cmara e Presidentes das Juntas de Freguesia eram nomeados pelo governo. Havia, nas aldeias, tambm uma espcie de 'ministro' ou prefeito, chamado regedor, encarregado de manter a ordem, chamar a Guarda republicana em caso de baguna...

E quem que votava?- S alguns; os chefes de famlia(o pai),com a 4classe feita (durante muito tempo o ensino no foi obrigatrio - por isso ainda h tantos analfabetos) que usufrussem de determinado rendimento anual - isto exclua grande parte das mulheres, os pobres e os analfabetos. Podiam tambm votar os funcionrios e funcionrias do Estado. (os quais, como foi dito antes, eram obrigados a uma declarao de fidelidade ao regime),cujo recenseamento era assegurado pelos servios de que dependiam.
No havia acesso aos cadernos eleitorais - e por isso a oposio no podia controlar a sua correco.

Nestas condies, as eleies no eram verdadeiramente livres nem democrticas - e na maior parte das vezes, as listas de oposio viam-se obrigadas a desistir da sua candidatura, por falta de respeito pelos seus direitos. Havia, assim, fortes suspeitas de fraude nas eleies.

As eleies mais clebres foram para a Presidncia da Repblica, em 1958 - havia o candidato de Salazar, Almirante Amrico Toms, e o da oposio, general Humberto Delgado
Foram as eleies mais concorridas e suspeita-se de que, apesar de todas as obstrues, o candidato da oposio ganhou. S que os resultados eleitorais dados pelo Governo foram os inversos...em parte devido ao nmero elevado de mortos que votaram...No havia representabtes dos candidatos a assistir contagem...
Para evitar problemas destes, deixou de haver eleies do Presidente por voto directo e secreto ­ o Presidente passou a ser eleito por um colgio eleitoral formado por gente do regime...Assim, Amrico Toms manteve-se como presidente at 25 de Abril de 1974
Antes disso, o General Humberto Delgado foi barbaramente assassinado pela PIDE, polcia secreta.

Ou seja: no que respeita a eleies (e no s) estava a fazer-se como se fazia - sabe-se hoje nos estados comunistas do Leste europeu ou ainda na China e noutros regimes autoritrios.

Actualmente - e desde o 25 de abril de 74-como sabes, obrigatrio o recenseamento para todos os maiores de 18 anos e as eleies so absolutamente democrticas e livres. Como em todo o mundo civilizado se faz. E no h censura imprensa, rdio e TV, nem prises por motivos polticos.

Quero acabar citando MIGUEL DE SOUSA TAVARES:

Vai fazer "20 anos que todos os dias agradeo Providncia viver num pas livre, sem censura, sem delitos de opinio, sem presos de conscincia. Para os que no conheceram o regime anterior, isto pode parecer to banal que nem chegam a entender como que ainda h amigos de Alex em nmero suficiente para se comoverem com cada 25 de abril que passa. E, contudo, a todo o passo me assalta a mesma alegria e o mesmo orgulho de viver num pas onde, por exemplo, o debate sobre a guerra de frica, na SIC possvel acontecer.

[....]-in PBLICO,28 de Janeiro de 1994.

 

SITUAO DAS MULHERES

Fala-se muito agora de direitos das mulheres, de direitos da famlia, etc.. E como era antes do 25 de abril de 1974?
As mulheres raramente tinham autonomia jurdica - primeiro dependiam dos pais e, depois, dos maridos. E as relaes na famlia eram de ausncia de direitos iguais face, por exemplo, escolha do domiclio ou educao dos filhos.
Assim, domiclio conjugal = domiclio escolhido pelo marido; a mulher no podia abandon-lo.

A educao dos filhos era decidida pelo pai (de preferncia de acordo com a me, mas, no havendo acordo...vingava a escolha do marido).
Mulher casada no tinha passaporte individual e s podia ausentar-se para o estrangeiro com autorizao escrita do marido(como hoje sucede para os filhos menores)

Quanto s professoras do ensino primrio, tinham de ter autorizao do governo para casar...E as enfermeiras no podiam casar. Por isso, grande parte das enfermeiras eram freiras...

J sabemos que nem todas as mulheres tinham direito de voto: s as chefes de famlia (solteiras ou vivas) ou as que tivessem uma profisso remunerada.

Nas escolas: - as alunas e, em algumas escolas, as professoras, tinham de usar bata de modelo uniforme. No eram admitidas na escola se vestissem calas - trajo s autorizado para os rapazes e cavalheiros. Uma vez, na escola onde lecciono, a Rodrigues Lobo, em Leiria, uma professora apresentou-se de calas. Foi mandada para casa e s pde dar aula quando regressou, vestida de saias.

Numa outra escola em que estive a fazer o meu estgio, os professores - homens podiam fumar na sala de professores ;as professoras, no - tinham de 'refugiar - se' nas casas de banho e fumar s escondidas...era considerada prtica pouco decente para senhoras...

As pessoas casadas pela Igreja(a maioria) no podiam divorciar-se e voltar a casar pelo civil. Podiam, naturalmente, separar-se e arranjar outras famlias - mas ficavam sempre em posio no reconhecida juridicamente pela lei e os filhos de nova ligao ou eram considerados ilegtimos (os filhos ilegtimos, para alm de serem 'mal vistos' pela sociedade, no tinham quaisquer direitos a herana e proteco dos pais) ou eram considerados filhos do anterior 'casamento', que permanecia indissolvel em termos legais. Isso causou grandes problemas nas famlias, como podes calcular. Resultava de um acordo, chamado Concordata, de 1943,feito com o Vaticano.
Por isso, uma das primeiras medidas tomadas pelos governos democrticos sados do 25 de Abril, foi denunciar e renegociar a Concordata .Hoje ,no sendo uma soluo muito boa, o divrcio reconhecido pela lei e as famlias podem optar por ele, sem problemas jurdicos - bem bastam os outros problemas que um divrcio arrasta consigo....

E havia um hino da Mocidade Portuguesa Feminina (MPF)que dizia que as mulheres serviam (s) para ser guardis das tradies lusas, entre as quais a tradio crist - na guarda da Ptria: aos vares competia defender a ptria de armas nas mos:

 

"Olhai, sim, que no seu posto
De lusitanas vigias
A misso destas fileiras
no nas lutas guerreiras
nas lides salvadoras
a lembrar Nao
que tem as chagas de Cristo
Nas quinas do seu braso". (excerto do hino da MPF)

Hoje, felizmente, a mulher considerada como igual em dignidade e direitos (e tambm em deveres) homem- o que salutar para todos, homens e mulheres. Falamos de igualdade terica e jurdica - que da igualdade real - haveria ainda muito que dizer...porque muito h ainda para fazer...

 

OS JORNAIS/A CENSURA *:

No havia Liberdade de imprensa - isto , de informar os cidados sobre o que se passava. Salazar instituiu, por decreto de 19.04.1933,a censura prvia a todas as publicaes peridicas, folhas volantes, folhetos e outras publicaes, sempre que abordassem assuntos de carcter poltico ou social(lutas operrias, por ex.).As comisses de censura cometeram inmeros abusos, por conta de tal decreto - muitos jornalistas acabaram por ser julgados em tribunais comuns ou em tribunais especiais. Para crimes polticos.
Como era: Em Lisboa, os servios de censura. recebiam os telexes das agncias noticiosas; depois davam resposta: livre, cortado (total ou parcialmente)ou suspenso. As agncias transmitiam ento estas indicaes aos jornais. No caso de notcias do pas, os jornais enviavam provas dos textos j compostos tipograficamente, recebendo ,depois, instrues sobre o que deveriam 'cortar' .Assim, os leitores s sabiam o que convinha aos censores, ou seja, ao governo. Ou ento, o que liam em revistas ou jornais estrangeiros(quem tinha acesso a eles)ou captavam em emisses clandestinas em onda curta, na rdio.

Alguns exemplos da censura (notcias censuradas):

Julgamento de abate de burros, no Tribunal de Gneros Alimentcios: No pode ser publicada qualquer referncia aos meios coercivos para obter confisses.

Inundaes :os ttulos no podem exceder a largura de 1/2 pgina e vo Censura. No falar no mau cheiro dos cadveres. Actividades benemritas de estudantes :CORTAR

Posto em liberdade, por lhe ter sido concedido o Habeas Corpus, o Dr.Mrio Soares apresentou cumprimentos aos jornais--CORTAR

Telegrama 140 da Reuter. No aludir, no ttulo, ao Partido Comunista Portugus, pois coisa que no existe.

Final da Taa de Portugal(Benfica - Acadmica. No falar em luto acadmico. (obs.: em virtude da represso exercida sobre movimentos associativos em 1969)

No dizer, em ttulo, que foi aprovada em Itlia a lei do divrcio. Dizer que foi apreciada.

Fotos de brinquedos de Natal, reproduzindo armas de guerra. CORTAR as legendas pacifistas.

O Papa recebeu no Vaticano terroristas portugueses - CORTAR TUDO. MUITO CUIDADO.(obs.: tratava-se da notcia de que o Papa recebera representantes de movimentos de libertao das colnias portuguesas de frica)

Reitor do Liceu de Faro diz que os resultados dos exames ainda no saram devido a estarem os professores fatigados.- CORTAR

Proibido dizer que no Rossio soltaram um animal(porco)com um barrete de almirante(crtica eleio de Amrico Toms),pelo que houve cargas de polcias e prises.

S Carneiro renunciou ao cargo de deputado e, nesse sentido, escreveu uma carta ao presidente da Assembleia - notcia e carta esto PROIBIDAS.(OBS .:S Carneiro tinha sido eleito como liberal para a Assembleia Nacional, mas demitiu-se por discordncia poltica; aps o 25 de Abril viria a fundar o PSD e chegou a primeiro-ministro)

Notcia de que uma famlia vivia numa barraca e, depois, foi instalar-se numa casa, de onde o senhorio a expulsou - CORTAR.

Reclame do livro do general Spnola Portugal e o Futuro - para PROIBIR.

Reunio de bancrios hoje em Lisboa. Reduzir ao mnimo. S dizer: realizou-se ontem

*Elementos deste texto foram extrados do livro de Victor Silva Lopes, Iniciaoao ao Jornalismo
CLB,Lisboa,1980

 

A MOCIDADE PORTUGUESA

O regime salazarista cedo entendeu que, para se consolidar, um sector importante seria, a par da censura imprensa e espectculos e da polcia poltica, o do 'endoutrinamento' dos jovens portugueses, mediante a veiculao da ideologia do Estado Novo na escola.

Tal era, basicamente, conseguido de vrios modos:
- - j falmos um pouco do controle apertado dos professores pelos reitores' e seus 'ajudantes' -
- os vice-reitores - nomeados pelo Governo, e pelos servios de inspeco (lembramos que os professores tinham de fazer anualmente uma declarao de apoio ao regime e de repdio 'activo do comunismo e de outras ideologias subversivas');
- pelo contedo dos programas, e nomeadamente dos livros de estudo 'nicos' aprovados no pelos professores, mas pelo Ministro da Educao .
- finalmente pela criao, desde 19 Maio de 1936,da MOCIDADE PORTUGUESA E DA MOCIDADE PORTUGUESA FEMININA.
-
Tratava-se de uma organizao de inscrio obrigatria para todos os estudantes e de tipo para- -militar ( semelhana de organizaes congneres alems e italianas, de tipo fascista ,bem como das Juventudes Comunistas dos pases da rbita sovitica).
A Mocidade Portuguesa tinha um Comissrio Nacional da confiana de Salazar - e era organizada maneira de um exrcito, com as seguintes divises: as quinas (grupo de 6 elementos, chefiados por um 'chefe de quina');os castelos(30 elementos, chefiados por um 'comandante de castelo')e as falanges ou bandeiras (comandados por um comandante de falange e constitudas por 240 elementos); portanto, um mini - exrcito devidamente hierarquizado, para rapazes e raparigas. Havia tambm 5 categorias etrias de filiados: os lusitos (7-10 anos);os infantes(10-14 anos);os vanguardistas(14 a 17 anos)e os cadetes(17-25 anos).

E o que se fazia nas tardes destinadas s actividades da Mocidade Portuguesa?

Havia uma 1preparao para-militar para os rapazes , que envolvia uma espcie de 1'recruta 'a partir dos 17 anos havia tambm uma forte preparao fsica - ginstica e desportos [os professores de Educao Fsica viviam na dependncia dos responsveis da Mocidade Portuguesa nas escolas em que leccionavam; a sua continuao na escola dependia de boa informao dada pelo(a)responsvel da M.P.ou M.P.F.]; havia tambm outras actividades extra-curriculares de ideologia nacionalista, mas tambm de ndole cultural e recreativa - por exemplo, as 'meninas' podiam ter aulas de enfermagem, 'arte de dizer', culinria ,etc, de modo a poderem vir a ser as 'sentinelas das mais lusas tradies' '-'as lusitanas vigias', enquanto competia aos 'vares', ou seja, aos rapazes, defender a Ptria 'de armas na mo'.

Cultivava-se, por um lado, para todos um patriotismo de feio 'patriotinheira'-ns, portugueses ramos o povo' entre todos escolhido para povo do Senhor', os melhores do mundo, os que sempre tnhamos tido Deus do nosso lado (desde o milagre de Ourique) e sempre tnhamos feito o bem, por idealismo, levando desinteressadamente a civilizao aos pretos e outras raas, na frica, na sia, no Brasil...ao contrrio dos outros povos, quase sempre 'os maus', que s se moviam por interesses econmicos, pouco nobres ;,e, por outro lado, o sentido do dever de obedincia aos chefes - no hino dos 'lusitos' (7-10 anos) dizia-se :"Somos pequenos lusitos / Mas j firmes e leais / honramos e respeitamos / nossos chefes, nossos pais // Temos pela Ptria amor / e esperana no porvir / De bom grado aqui vimos / o nosso dever cumprir..."//[...]E se algum dia /preciso for /ir combater pela Nao /iremos com a f em Deus e a Ptria no corao"

Como j foi dito, era obrigatria a inscrio na Mocidade Portuguesa - e para os rapazes a aquisio de uma farda semelhante da tropa, castanha e verde, com as insgnias da organizao - o cinto fechava com um S - oficialmente de "Servir no Sacrifcio", mas que era vulgarmente interpretado como Servir Salazar...
Havia tambm inmeros cnticos patritico / patriotinheiros que celebravam o culto dos heris, dos chefes, do sacrifcio e da obedincia.

Por ex. um tinha o seguinte refro:

Dos valentes Portugueses / Honremos a sua glria / Aos mouros e Castelhanos / Alcanam sempre a vitria // Pelos mares abrem caminhos/Em todas as direces/ E assim mostram novos mundos/ s conhecidas Naes. //Tenho orgulho / em ser filho/desta to linda nao/To bonita, to formosa/que a trago no corao...

O equipamento de ginstica levava tambm colado o emblema da M.P./MPF.E os cadernos dirios, folhas de testes, etc., vendidos exclusivamente nas escolas, igualmente.) Havia anualmente desfiles e paradas no 1de Dezembro e 10 de Junho, acompanhados de grandes festivais ginsticos.

[E de novo nos vem memria o que se v nos filmes sobre Hitler e Mussolini e tambm nos festivais de juventude que ocorriam nos pases comunistas].

De resto a saudao da Mocidade portuguesa era a saudao hitleriana (que agora os grupos e 'gangs' neo-nazis tambm adoptam)

Nas escolas primrias cumprimentava-se assim o professor e os retratos obrigatrios de Salazar e do Presidente da Repblica. E rezava-se obrigatoriamente diante de um crucifixo colocado a meio dos dois retratos. Pelo menos nas aldeias era assim. Na escola onde andei era assim,juro.

A Mocidade Portuguesa desenvolvia tambm actividades sociais de tipo caritativo - de que se destacava, para as 'meninas', a feitura de 'enxovais' para oferecer aos bbs pobres no dia das Mes(na altura,8 de Dezembro).
Muitos dos elementos e quadros mais destacados da Mocidade vieram a ser os futuros quadros de confiana de Salazar.

A partir de 1966 (data em que Marcello Caetano se tronou primeiro-ministro e quis dar mostras de alguma 'abertura' do regime) a Mocidade abandonou as prticas e treinos para-militares e ficou apenas com actividades de aco social escolar, circum-escolares e de ocupao de tempos livres para jovens no estudantes. A Mocidade Portuguesa, como a P.I.D.E., a Censura, a Legio Portuguesa foram naturalmente extintas aps o 25 de Abril de 1974.

A autora destas linhas teve, durante 7 anos,de ler,em todos os cadernos dirios do Liceu que frequentou, ornamentados com o emblema da Mocidade Portuguesa, frases deste tipo:

TUDO PELA NAO / NADA CONTRA A NAO

"Temos de lutar pela verdade da vida que luta,que sacrifcio, que dor, mas que
tambm alegria, cu azul, almas lavadas e coraes puros"(OLIVEIRA SALAZAR)-

- um pouco maneira do 'livro vermelho' de Mao Tse Tung ou do 'livro verde' de Khadafi...

Por isso, no recorda com saudade tais tempos - mas entende d-los a conhecer, para que os mais novos fiquem a saber como era - e vejam como o 25 de Abril de 1974 era necessrio.

De resto, verdade se diga que tambm os grandes e pequenos responsveis do anterior regime e das suas organizaes, a nvel nacional e local, se deram depois conta de que, afinal, viver em democracia melhor e acabaram por saudar - vamos acreditar que com sinceridade - os novos tempos .E ainda bem, para todos vivermos contentes...

 

A GUERRA NAS COLNIAS:

Como todos sabemos, Portugal foi senhor de um vasto imprio que ,em determinada altura, lhe dava o senhorio de metade do mundo - dizia Cames, tratava-se de um Imprio que "o Sol logo em nascendo v primeiro/ V-o depois no meio do Hemisfrio/ E quando dece o deixa derradeiro"
-ou seja, que ia do extremo Oriente [Timor] ao Ocidente [Brasil] .Este Imprio circunscrevia - se, em 1961,aos territrios de Cabo Verde, Guin-Bissau, So Tom, Angola, Moambique, Macau e Timor .At essa data tnhamos ainda o chamado Estado Portugus da ndia (Goa, Damo e Diu).

ramos j, nessa altura, o ltimo pas com posse de territrios coloniais, apesar da doutrina oficial de que se no tratava de colnias, mas de provncias ultramarinas - com o mesmo estatuto do Minho ou do Alentejo.
No entanto, nunca, por exemplo, Salazar visitou esses territrios - e a verdade que a moeda e muitas das leis desses territrios eram diferentes. Eram governados por Governadores gerais, nomeados por Lisboa.
De resto a ocupao de tais territrios ,principalmente, dos africanos, s se tinha feito verdadeiramente a partir do ltimo quartel do s. XIX, perante a necessidade de os defender da cobia de outros povos europeus ,como a Inglaterra.. At a, mais no eram, praticamente, que colnias penais, ou, em tempos mais remotos, zonas de captura de escravos ou portos necessrios ao comrcio com o Oriente..
Nesses territrios as autoridades portuguesas exerciam discriminao sobre os negros, do tipo do 'apartheid' sul-africano, como era o caso de Moambique; noutros, havia, de facto, legislao especial para os 'pretos', a quem no eram, quase , reconhecidos direitos. No entanto, era-lhes ensinado a Histria de Portugal, fazendo-os descender dos "avs lusitanos"; e, em Portugal dito Continental, aprendamos os rios, montanhas e caminhos de ferro de Moambique e Angola...
De resto,em Moambique, por exemplo, s 1%da populao negra era alfabetizada...o que no abona muito em favor de uma obra dita de civilizao...Eram, de facto, pases que nos forneciam riquezas vrias e que, em contrapartida, procurvamos 'desenvolver' economicamente, para nosso proveito.S depois de 1961 se fundaram universidades em Angola e Moambique tambm.
Mas o tempo dos Imprios tinha acabado - em frica como, no s.XIX, nas Amricas.

Verificaram-se,ento, por todo lado, guerras de libertao conduzidas por movimentos nacionalistas. E justamente em 1962, Angola assistia s primeiras lutas pela independncia, a que se seguiram, em breve, idnticos movimentos em Moambique e Guin.

A este justo desejo de independncia, reagiu Salazar e o seu governo, encetando uma guerra colonial que se prolongaria at 1974,com perda de vida de milhares de soldados e oficiais, sobretudo milicianos, no de carreira (no me ocorre o nome de nenhum general...) numa guerra que nem todos consideravam justa e a opinio mundial reprovava.
Muitos dos soldados que a fizeram achavam sinceramente que defendiam a ptria e, por isso, o seu sacrifcio deve ser respeitado. Afinal eles tambm foram vtimas de Salazar...e no eram voluntrios para essa guerra.
No era o caso de muitos outros - para alm de desertores e refractrios, exilados no estrangeiro,(recusavam participar de uma guerra injusta) muitos oficiais de categoria intermdia e um General - o General Spnola - achavam que, - no havendo hiptese de vitria militar, - seria continuar a correr contra os ventos da Histria - mais valia entrar em negociaes polticas aceitveis e em formas de cooperao futura .Entretanto, para alm de perda de vidas portuguesas e africanas, havia histrias de massacres cruis,[como no Vietname],e milhares de mutilados, fsica e psicologicamente.

Para alm do mais, no se podia discutir publicamente a guerra - nem sequer na Assembleia Nacional - e a censura imprensa reforou-se em tudo o que dizia respeito guerra - no se passavam, semelhana do que acontecia com a Guerra do Vietname, ou, mais recentemente, com a guerra do Golfo, imagens televisivas, em Portugal. A prpria correspondncia dos soldados era censurada antes de chegar s famlias.

 

Porque uma guerra nunca uma coisa boa, porque uma guerra colonial no era, de modo algum, justa, luz dos valores de respeito pelos homens e pelos povos, porque a condenao internacional era unnime, se fez em 25 de Abril de 1974 uma revoluo - do seu programa constava Descolonizar ­ Democratiza r- Desenvolver. E uma das primeiras tarefas foi mesmo descolonizar - para muita gente numa descolonizao necessria,mas 'precipitada' e 'mal feita'.Isso assunto para discusso ainda,mas irreversvel. E hoje bom termos tais povos como amigos - at pela lngua e passado comum.
Alm disso , bom saber que, se tudo correr bem a nvel internacional, no teremos que fazer mais guerras...E podemos apostar preferentemente na paz e amizade entre os povos e na defesa do nosso habitat natural : a Terra - e na melhoria de condies dos seus habitantes.

 

O APARELHO REPRESSIVO - A P.I.D.E.

J falmos nas 'notcias' anteriores de como o salazarismo se conseguiu implantar graas, principalmente, promoo do obscurantismo [manuteno em estado de analfabetismo ou semi - analfabetismo de grande parte da populao, poltica educativa marcada ideologicamente, de que destacmos, a existncia de livro nico, o controle exercido sobre os professores e principalmente os do ensino primrio, a no democratizao da gesto das escolas, a proibio de associaes de estudantes no ensino secundrio e o controle das universitrias, a proibio de sindicatos de professores, etc, a existncia da Mocidade Portuguesa e da Mocidade Portuguesa Feminina - lembremos sempre a afirmao despudorada de Salazar de que quanto mais ignorantes, mais humildes]; - tal obscurantismo prosseguia, j fora da escola, com a instituio da censura imprensa , aos livros e aos espectculos - do mundo e de Portugal s se sabia o que era conveniente ao regime - e as grandes questes nacionais no podiam sequer ser discutidas - por exemplo, as questes de regime ou a guerra colonial, ao abrigo do NO DISCUTIMOS DEUS, NO DISCUTIMOS A PTRIA, NO DISCUTIMOS A FAMLIA...

Mas, para alm destes eficientssimos instrumentos de controle do pensamento e da inteligncia, havia tambm, para quem conseguia furar o bloqueio, instrumentos repressivos muito eficientes. Tratava-se das polcias em geral, da LEGIO PORTUGUESA, tropa de elite enfeudada a Salazar-como os camisas negras ao fascismo italiano, ou os S.S.a Hitler, e, sobretudo, da polcia secreta, prim eiramente chamada P.V.D.E.(os oposicionistas chamavam-lhe a 'pevide'),depois P.I.D.E.(Polcia de Informao e Defesa do Estado) e, nos ltimos tempos do regime, D.G.S.(Direco Geral de Segurana).

A Polcia secreta de Salazar funcionava, como outras polcias secretas do mundo, com base numa rede tentacular de informadores (em linguagem vulgar 'bufos') que, a troco de salrio, espiavam todos. O clima era tal que ningum ousava exprimir opinies nos cafs, nas aulas -nunca se podia ter a certeza se o amigo com quem estvamos no seria um 'bufo'...
Vivia-se, como em perodo de Inquisio, no clima que Antnio Ferreira, poeta do s. XVI, definira assim : "A medo vivo,a medo escrevo e falo, e hei medo do que penso s comigo".
A PIDE espiava, fazia crescer os seus ficheiros, prendia, torturava, matava (para alm dos presos do campo de concentrao do Tarrafal, em Cabo Verde, foram assassinados pela Pide o General Humberto Delgado e o pintor Jos Dias Coelho - cujo assassnio tema da cano de Jos Afonso, A morte saiu rua - e alguns estudantes).

E como as pessoas tinham medo de falar abertamente de poltica, inventavam-se muitas e saborosas anedotas, cujos protagonistas eram Salazar, o Almirante Toms, a Pide, etc...Mas mesmo essas anedotas eram s contadas entre amigos...no fosse o diabo tec-las...

Havia para algumas pessoas dificuldade em obter passaporte - alm de que s se podia pedi-lo para determinados pases - estavam excludos todos os pases comunistas da poca; a sua emisso dependia da informao da Pide; por exemplo, quando eu quis obter o meu 1passaporte,em 1964,(ainda que oposicionista, eu no militava em nenhum partido) tive de dizer na Pide, em Coimbra, para onde ia, que ia fazer, etc.. Cometi a ingenuidade de dizer que ia a um curso na Universidade da Paz, na Blgica. Obtive passaporte, mas, aps o regresso, fui visitada por um pide que queria saber afinal o que era isso da Universidade da Paz - que estvamos em guerra e falar de paz era algo de subversivo. E eu era na altura estudante universitria - logo, suspeita. Alm de que o fundador dessa Universidade da Paz era um dominicano, Prmio Nobel da Paz, que comeava a incomodar um pouco o governo portugus, intervindo em casos de priso arbitrria de pessoas, denunciadas pela Amnistia Internacional e por alguns padres portugueses mais corajosos, na altura designados de 'progressistas', em oposio generalidade da Igreja Catlica, que apoiava claramente Salazar, pessoa muito devota - e tambm em casos de massacres na guerra colonial igualmente divulgados na informao estrangeira.Chamava-se esse dominicano Dominique Pire, foi meu amigo, amava Portugal e morreu sem ver o 25 de Abril de 1974.

De resto, pertenceriam ainda responsabilidade da Pide os nicos mortos da revoluo de Abril. Esta, a revoluo, acabou por ser generosa e libertou os alguns pides que ainda foram presos. Do mesmo modo que deixou partir em paz os grandes responsveis do regime, nomeadamente Amrico Toms, o Presidente, Marcello Caetano, o 1Ministro- e quase todos os membros do governo de ento.

S uma dvida subsiste ainda para mim: - como foi possvel que a revoluo de 25 de abril triunfasse to rapidamente, apesar da Pide tudo controlar - sem encontrar, praticamente, resistncia? Para mim este foi e ainda um enigma - que talvez s daqui a muito tempo se desvendar...

Claro que o chamado fascismo portugus no foi to violento e sanguinrio como o foram o alemo(viste A LISTA DE SCHINDLER?),o italiano, o espanhol (franquismo) ou o sovitico, chins ou cambodgiano (bem sei que a alguns destes no costume chamar-se fascismo...).Mas tambm no foi preciso... que a poltica de promoo do obscurantismo de que falmos, e os nossos tradicionais 'brandos costumes', evitaram o recurso sistemtico violncia fisica.

No fundo ramos 'bem comportadinhos' - para alm de sermos na poca um pas fortemente rural (perto de 70%de populao rural). Por isso, a contestao do regime foi, sobretudo, obra de intelectuais (esses at liam ...nomeadamente livros e revistas estrangeiras),estudantes (que para intelectuais caminhavam) e de operrios das zonas mais industrializadas, (Lisboa, Marinha Grande) com tradies de sindicalismo e de politizao, conseguida, nomeadamente, pela influncia do na altura clandestino Partido Comunista e no s. - e depois, a fome quando aperta, aperta mais nas cidades e zonas industriais do que no campo...como continuamos, infelizmente, a saber.

 

OBS.: AS DIFERENTES ESTAES DE TELEVISO ESTO A PREPARAR E A REALIZAR PROGRAMAS SOBRE
O 25 DE ABRIL. CONSTA QUE A RDIO TAMBM. E QUE A TSF IR FAZER UMA RECONSTITUIO DO QUE FOI O 25 DE ABRIL A PARTIR DAS 0.30 HORAS DO PRXIMO DIA DA LIBERDADE. No h razo para no tentares saber mais sobre este dia que para muitos portugueses foi o dia mais feliz da sua vida.

 

E DEPOIS...A FESTA:

O regime comeava a cair lentamente, em processo de corroso interna que comeava tambm a tornar-se notrio aos mais atentos - e que a tentativa malograda do 16 de Maro vinha confirmar. Uma srie de acontecimentos prenunciavam a queda - a publicao do livro de Spnola PORTUGAL E O FUTURO e os acontecimentos a nvel de altas chefias militares da decorrentes, mostravam que havia descontentamento e dvidas a tais nveis - ora tinham sido justamente os militares que, em 28 de Maio de 1926, tinham instaurado uma ditadura que levaria ao poder Salazar e o seu regime de Estado Novo.

Lembro-me de em Paris, onde passava frias da Pscoa, ter estado com portugueses exilados - neles era j geral a convico de que em breve seria possvel o tal golpe militar de que se comeava a falar, nomeadamente na imprensa estrangeira .E tambm eles perguntavam noticias do (meu)pas no apenas ao vento que passa das trovas de Manuel Alegre, a quem vinha de Portugal para quando a revoluo. Aguardavam ansiosamente o fim do exlio forado e doloroso.

Em 24 de Abril, noite, ouvindo, como de costume, o programa Limite, na Rdio, surpreendeu-me ouvir ler a 1quadra da cano proibida pela censura GRNDOLA VILA MORENA, seguida da cano propriamente dita. Surpreendeu-me, mas estava longe de imaginar que essa era a 'senha' do golpe. Dormi normalmente at cerca das 6 horas da manh, altura em que fui acordada por uma colega que me dava a notcia de que havia uma revoluo.
Liguei de imediato a rdio e ouvi com expectativa os comunicados dum tal MOVIMENTO DAS FORAS ARMADAS (M.F.A.) que dizia estar em curso uma aco de libertao do nosso povo, procurando destituir o governo que h 48 anos oprimia o pas. No sabamos, inicialmente, de que militares se tratava: - se de militares democratas, se de 'ultras' militares de extrema-direita que contestavam Marcelo Caetano, por 'brandura'. Creio que nunca se ouviu tanto rdio como nesse dia - estvamos presos dos comunicados, das notcias, de saber o que se seguiria.

Vim para a escola tentar dar aulas 'normais' - naturalmente tarefa impossvel, e se calhar nem sequer desejada .As autoridades da escola, essas, estavam fechadas no antigo gabinete do Reitor, ouvindo rdio - a ver ,tambm, no que dava....s 3 da tarde j se sabia: - o poder autoritrio tinha sido derrubado, aguardava-se a rendio de Marcelo Caetano, refugiado com os seus ministros no Quartel do Carmo, onde era a sede da fidelssima Guarda Nacional Republicana. Essa rendio far-se-ia mais tarde, s ordens de Salgueiro Maia, o 1heri conhecido do golpe [foi tambm aluno desta nossa Escola].

Entretanto, s 3 da tarde, e com a presena j das autoridades liceais (Reitor e Vice-Reitores), fomos todos para o Ginsio ,no 1dos muitos Plenrios que se seguiriam. Houve algumas palavras do ento Reitor, que afirmou que nunca tinha vivido em democracia - e por isso, tambm ele iria ter muito que aprender. Falaram mais professoras, mais ou menos conotadas com a at ali oposio democrtica -e conhecidas como tal. Lembro-me da palavra de ordem mais aplaudida: Hoje comea uma nova vida para todos ns - uma vida de liberdade. H tudo para fazer .Por isso,no h tempo a perder. COMECEMOS DESDE J A TRABALHAR!

E essa a minha principal memria do dia - o dia que depois seria o 'dia da liberdade': de descompresso, de libertao, da festa - que o foi.
Nunca vi tanta gente contente. Por uns tempos as pessoas foram diferentes: sorriam abertamente umas para as outras, no se insultavam na estrada, davam mais facilmente boleias, exigiam mais justia, mais fraternidade, mais solidariedade - e o fim da guerra e a liberdade para os povos colonizados. Aprendiam a falar abertamente, a tomar a voz em plenrios, em sindicatos, em manifestaes.

.Acreditmos piamente que estvamos a construir um mundo melhor, mais fraterno, mais justo .Empenhmo-nos a srio - acreditmos que era possvel a utopia
Muito errmos em muitas ocasies. Fomos enganados na nossa boa f, outras tantas. Mas nunca professores e alunos estiveram to unidos na sua generosidade, nunca vi juntar-se tanta gente em torno do que consideravam boas causas(mesmo que, mais tarde, viessem a no consider-las assim to boas...).

Nem tudo correu bem, certo. A histria far-se- desapaixonadamente um dia. Mas foi bom poder ver a libertao dos presos polticos, foi bom ter a iluso de que podamos reconstruir a Histria,- foi bom tambm ver mais tarde o pas seguir, aps os sobressaltos de 2 anos, uma vida democrtica ,moderna, europeia, civilizada.
Foi bom estar nas primeiras eleies livres, em 1975, como tinha sido linda a festa do 1 primeiro de maio...em 1974. FOI BOM VER A FESTA. Uma festa de todo um povo que era bom e generoso - e se muitos pecmos durante o chamado Perodo Revolucionrio em Curso, a verdade que o balano final positivo : podemos orgulhar-nos de sermos um pas e um povo que soube vencer a 'austera,apagada e vil tristeza'de que j Cames falava, de recuperar direitos de cidadania longamente usurpados, de se erguer, sem complexos, face a uma Europa que finalmente nos aceitava no seu seio, como igual em dignidade e direitos.
E de termos feito uma revoluo de um modo geral civilizada, a primeira 'de veludo' das que aconteceriam na Europa - uma Europa que assistiu mais tarde, libertao do povo espanhol, dos pases do Centro (Alemanha de Leste, Polnia, Hungria, Checoslovquia, Romnia ,Bulgria) e, finalmente ,dos povos e naes da ex - Unio Sovitica.
Uma Europa maior porque mais livre - mesmo se albergando ainda grandes inquietaes e uma guerra terrvel na Bsnia e noutras regies da ex - Repblica da Jugoslvia...

Depois de termos mostrado a essa Europa como era o mapa do mundo, depois de sculos de 'vil tristeza', erguamo-nos de novo, encerrando o ciclo do imprio, sempre atlnticos, recuperando a grandeza [comprometida em Alccer Quibir] de no aceitar como fatal a infelicidade, o 'nevoeiro' de que falava Fernando Pessoa - e de podermos voltar a sonhar uma ptria mais justa e solidria.

Compete-nos continuar o sonho, crescer mais e melhor, e, sobretudo, reparar injustias, democratizar e desenvolver mais - visto que a misso de descolonizar, bem ou mal, foi feita. Essa a tarefa dos polticos, certo, mas tambm a de cada um de ns.

 

um notcias do 'antigamente'especial...

H 30 anos...o meu Liceu

Testemunho da Professora Maria Madalena Morna

Andei num Liceu daqueles de arquitectura estereotipada do antigo regime.
Era no Porto - um liceu estritamente feminino, que, por descuido do planificador destas coisas, distava apenas cerca de 1 kilmetro de um outro liceu, esse, claro, estritamente masculino.
E essa perspectiva ASSUSTADORA de encontros e cruzamento de sexos era diligentemente resolvida pelas prevenes cooperantes da Reitoria e da PSP: nenhum jovem rapaz podia entrar em conversaes com qualquer alegre menina a menos de 500 metros de distncia da porta do Liceu .E se as regras eram cumpridas!...

1 de Outubro, recomeo das aulas.

ramos religiosamente recebidas no Ginsio, numa cerimnia abrilhantada pela presena da abundante REITORA,mulher de grandes alturas e superfcies, de que at o nome, que por respeito omito, enchia e dilatava a j de si rolia pronncia do Norte. E ento era o discurso monocrdico de boas vindas, bons conselhos e boas regras.
Tive um episdio de PAVOR com essa imensa reitora. Num dia de frio a srio, ATREVI-ME a vestir o casaco sobre a BATA.
[A BATA era uma instituio. Havia-as de folhinhos para os primeiros anos, de escapulrio e pregas para as adolescentes e, j mais crescidinhas, de franzidos para as debutantes finalistas.]

Pois, ia eu ainda na fase dos folhinhos achatados pelo casaco, quando fui chamada Reitoria .Foi a DERROCADA: ir quele gabinete significava sempre um castigo ,fosse ele disciplinar, uma bofetada ou um raspanete. QUE TERIA EU FEITO?

Tinha os trabalhos de casa em dia, no falava nas aulas, no respondera a essa verdadeira instituio de autoritarismo que era o jardineiro (maldosamente chamvamos ­l he o 'senhor Reitor'...),no ultrapassara ningum na fila da Cantina, no...no...no... E,mal entrei, a GRANDE SENHORA desabou o seu terrvel raspanete: eu,pecadora, tinha OUSADO tapar os folhinhos, cedendo COBARDIA; e PARA CMULO, manchara os sapatos no ptio em corredorias IMPRPRIAS de meninas...
QUE VERGONHA para a instituio! E que alvio para mim!...

Das aulas lembro apenas 3 ou 4 professoras, mas era tudo to igual que pouco me marcou. Mas no esqueo as sesses.
Ah! que inefveis dias, esses em que, uma vez por ms, ramos levados para o Ginsio e sabamos da NOSSA PTRIA, das NOSSAS colnias agradecidas; onde vamos filmes do Chefe Gungunhana, inimigo TERRVEL, que, mostrado num filme a spia de pssima qualidade, nos HORRORIZAVA de tal modo que, noite, deitada no escuro do quarto, tinha vises aterradoras em que o panudo selvagem saa pelo espelho do guarda-vestidos para ME atacar, A MIM,v estida com a farda de jovem defensora dos valores nacionais!

E os feriados?Divinos! ramos canalizadas para a Biblioteca, onde nos sentvamos calmamente espera dos LIVROS, que no escolhamos. De uma das vezes, em que j era "pregueada", lembro-me de ver essa 'jia'- de- empregada ­ que ­ resmungava - sempre - que- entrvamos, subir ao escadote, pegar numa braada de livros e comear a distribuir. - Pega e l, toma l,,, calhou-me o Conto das Botas Altas. E assim se promovia em mim o gosto pela leitura!...
Depois lembro as aventuras loucas de quem no podia andar em stio nenhum e, ento, explorava todos os stios, relembro as aulas de Ginstica, em que tudo se praticava, e bem ,-trave olmpica ,plinto, espaldares, cordas mveis...Lembro-me do osis: as actividades voluntrias - msica e voley. Quantas festas a cantar, quantos jogos disputados!

E, finalmente, o comeo super - proibido e, claro que nem imaginado, da militncia Pr-Associao de Estudantes. Eram minhas colegas algumas das mulheres 'polticas' de hoje.

E como sofremos a passar folhetos clandestinos sobre a necessidade de inovao e liberdade!
Como nos tremiam as pernas ao avistar um POLCIA! A quem passar a pasta comprometedora? Em quem confiar'?

E o MEDO, e a CORAGEM, e de novo o MEDO, e finalmente o ALVIO - e 30 anos depois, a nostalgia divertida que tudo isto gera!...

 

Amlia Pinto Pais
amelia.pais@netcabo.pt
Leiria,25 de abril de 1994,20 anos depois
(Actualizado em abril de 2002) 

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Edio n79 - 26/04/02

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